agosto 9, 2011

Quando um protesto popular é legítimo?

Estamos vendo nos últimos dias protestos populares em Londres que estão alcançando todo o mundo com suas imagens de destruição e violência. A delinquência, associada a um descontento com a força policial, segundo a mídia, é a causa de tais manifestações.

Admito que não estou a par de detalhes dos acontecimentos e que minha quase exclusiva fonte é a versão online do jornal O Globo. No entanto, tenho a sorte de conhecer uma amiga jornalista em Londres e que posta tudo em seu twitter (valeu @Selkie!). Embora as informações via twitter sejam cortadas e muitas vezes descontextualizadas, pude ter um outro vislumbre da situação por lá.

Por outro lado, eu, como todo o mundo, tive a oportunidade de acompanhar os protestos populares em alguns países do mundo árabe através das mídias (de novo, O Globo online). Mas, de novo, tenho um primo que mora no Cairo e que sempre dava informações pelo Facebook do que acontecia – e ainda acontece – por lá. Ou seja, tive uma visão de alguém de dentro da situação e não de jornalistas de fora assistindo ao ocorrido.

Por que falar desses dois temas em um mesmo texto? Aí está meu ponto: em que nível uma série de protestos populares deixa de ser turba e vandalismo para passar a ser movimento libertário?

Digo isso porque os movimentos nos países árabes foram retratados (e de fato era assim) como movimentos reivindicatórios por mudanças estruturais no país para torna-los mais democráticos, dar melhor qualidade de vida ao povo e para levar o país para um futuro melhor para todos (seu povo e o resto do mundo). Tudo foi retratado pelos meios como uma verdadeira volta da primavera de 68 e seu pensamento revolucionário de um mundo melhor.

Uma vez mais afirmo que não conheço os fatos em detalhes e que isso se trata de uma percepção (que alguém me explique melhor, caso esteja equivocado). No entanto, aparentemente as revoltas em Londres se baseiam nos mesmos preceitos das do mundo árabe: mais democracia, melhor qualidade de vida ao seu povo e o desejo de ter um país melhor para todos (seu povo). Sim, começou como um protesto contra a força policial, mas não seria essa a representante do Estado com o qual a população menos favorecida mais tem contato? A Europa, e a Inglaterra não fica de fora, está passando por um problema financeiro grave em que os jovens são os mais prejudicados, com pouco emprego, salários ridículos e custo de vida absurdo. Não é este um cenário que faz crescer o número de gangues, de marginalização da população (no sentido de deixa-la à margem do poder) e de negativismo frente ao futuro?

Assim, em que momento essas rebeliões em Londres deixarão de ser de vândalos para serem de reivindicações populares legítimas? O que está faltando? Apoio de grandes potências interessadas na derrocada do governo inglês? Apoio da mídia, que compra e vende a ideologia ocidental como verdade universal?

Será que estas rebeliões em Londres não deveriam ter uma cobertura mais humanista e menos capitalista?

fevereiro 9, 2010

Como a indústria discográfica matou os shows e como o download tem trazido os artistas para perto do público

Título grande, mas muito claro em relação ao que pretendo dizer. É importante salientar que tudo o que estou escrevendo é meramente uma impressão minha do que eu vejo acontecendo e não algo baseado em estudos e dados concretos. É só meu pitaco num assunto polêmico.

Será mesmo que o download de músicas vai acabar com os artistas, com os músicos, cantores e compositores? Ou apenas com a indústria discográfica?

Passados alguns vários anos da invenção e popularização de programas como o napster, praticamente todos os usuários de computador baixam músicas – dentre outras coisas – nas suas máquinas para consumo próprio.

É importante salientar esta parte – a do consumo próprio – porque é o descaracteriza a pirataria. Pirataria, como vem escrito nas telas de qualquer filme original, é a cópia para venda, reprodução em espaço público ou qualquer outro ganho monetário a partir da mesma. Como é para consumo próprio, não foi vendida, não foi exposta em espaço público nem houve um ganho monetário em cima dessa cópia.

Voltando, aos fãs dos mais diversos artistas e estilos de música baixaram os arquivos e escutam como nunca as músicas dos mesmos. Ou seja, do ponto de vista artística da indústria musical, os músicos nunca foram tão apreciados, seguidos, decorados e reproduzidos.

Mas, como disse antes, se trata de uma indústria, o negócio é ganhar dinheiro. Nesse sentido, realmente os artistas têm saído um pouco no prejuízo. Mas será que a culpa é apenas dos downloads?

Eu acho que num país como o Brasil, cujo salário mínimo é de $510,00, como se pode querer popularizar a música com discos de 30 a 50 reais? Não dá. Mesma para a classe média, que ganha consideravelmente mais que isso, pesa no bolso gastar essa grana para escutar 15 músicas.

Principalmente se levarmos em conta o preço para se produzir um cd. Se levarmos em conta o valor de aluguel de estúdio, profissionais, mixagem, pós-produção, fabricação do cd, gravação do mesmo, fotos para a capa, confecção da capa, produção das imagens, armazenamento  e transporte, o valor de cada cd sai quanto? Eu não sei ao certo, mas tenho certeza de que não seja nem perto dos 30 reais. Se somarmos o valor de marketing – nada se vende só, nem água – diria que nem assim chegaria nos 15 reais.

Então o resto do dinheiro seria de lucro da gravadora, contrato do artista e lucro do varejista. É bastante grana para cada cd feito. O que significa que o cd está caro por cobiça da indústria, o que só empurra cada vez mais o consumidor para os downloads.

No entanto, não vemos os artistas definhando sem dinheiro e pedindo esmolas. Então como fazem eles para continuarem ganhando dinheiro?

Bom, primeiro de tudo, os fã continuam comprando seus cds e dvds. São mais bonitos, mais bem-feitos, vêm com extras e são colecionáveis – o que é muito importante para quem gosta.

No entanto, o que venho notando como real fonte de renda deles, é que aumentaram o número de shows. Não dá para falsificar um show. Tá, é claro que dá pra falsificar o ingresso, mas é bem mais fácil de controlar.

Sim, eu sei que o preço dos ingressos são caros, fora da realidade brasileira também. também acho que poderiam fazer mais barato. Mas é fato que, para quem é fã, um show ao vivo, em cores, no meio da multidão, cantando junto e sentindo a energia dos artistas e do público vale muito mais que um cd em casa.

Então é uma situação em que os artistas ganham – sua grana está garantida –, seus fãs ganham, mas as gravadoras não ganham tanto quanto gostariam.

O reflexo disso são dois. As gravadoras ficam tentando assustar os consumidores que realizam downloads, processam os sites de armazenamento de arquivos e gastam rios de dinheiro para desenvolver tecnologia anti-cópia – apenas para que sejam desenvolvidas tecnologias mais avançadas pró-cópia.

O segundo são mais shows pelo mundo. Nos EUA e Europa sempre rolaram muitos shows. E, embora no Rio e em Sampa haja uma tradição de receberem shows de artistas internacionais, “nunca na história deste país” houve tantos shows internacionais.

Por isso que acho que, embora sejam importantes em várias partes do processo da indústria musical, as gravadores em geral contribuíram para o encarecimento dos produtos, para a diminuição dos shows pelo mundo e pelo elitismo cultural.

Os downloads trouxeram a indústria musical para um momento saudoso, com mais shows pelo mundo, artistas conectados com os fãs e fãs mais numerosos e mais ligados aos artistas.

Isso tudo para dizer que eu apóio o download de músicas pela internet.

janeiro 20, 2009

Charlatanice ou Pós-Ignorância, eis a questão

A vida com Internet dificultou o trabalho dos charlatões.

Há uns 15 anos atrás era muito fácil ser um senhor sabe-tudo. Era só ler um pouco, se manter razoavelmente informado pelos jornais e ter muita cara-de-pau. Se você dizia com convicção que o petróleo ia acabar no ano de 2003, todo mundo acreditava. Afinal de contas, era muito difícil buscar dados que confirmassem ou contradissessem o que foi dito.

Mas hoje em dia é muito fácil alguém te desmentir. Tem sempre um filadapú prontinho pra entrar na Internet no seu celular na hora e dizer que você está errado.

É claro que a Internet também permitiu que o charlatão também tivesse mais acesso à informação. Uma pessoa poderia dizer, inclusive, que facilitou o trabalho de charlatear.

Mas a verdade é que para ser charlatão nestes tempos modernos uma pessoa tem que ser mais bem informada do que antigamente, tem que ter um site trucho que corrobore o que ele diz e que de preferência consiga que seja o primeiro a aparecer no Google em caso de uma busca pelo assunto e, por fim, ter um artigo convincente no Wikipedia.

Ou seja, dá muito mais trabalho.

É por isso que surgiu o pós-ignorante. Ele é o charlatão do século xis-xis-í. Ele não precisa provar nada a ninguém. Ele só discute os assuntos, não afirma. Ele não responde a perguntas, ele cria mais dúvidas. Ele lança umas meias-verdades em meio a alguns pseudo-auto-questionamentos e deixa a todos achando que é um gênio. Cospe referências como um velho lança perdigotos ao reclamar da sopa fria. Não é cara-de-pau, ele acredita no que diz e sabe que não diz nada. Duvida de si antes que duvidem dele. É uma evolução natural da humanidade.

“Não tenho certeza, mas acho que li em algum lugar [no Globo, acho] que foi Schopenhauer quem disse que pela primeira vez que a China seria uma potência um dia e cresceria mais de 10% ao ano. Mas poderia ter sido Lincoln, não lembro direito.”

É uma arte, é uma habilidade que está além das capacidade do humano comum, é uma filosofia de vida só alcançada anteriormente por Confúcio!

É por isso que não me pretendo ser um pós-ignorante. Sou apenas um pós-ignorante wanna be. Assim, escrevo um site sobre a pós-ignorância e estou produzindo um artigo no Wikipedia. Tenho que assumir minha condição de charlatão até que tenha a maturidade suficiente para evoluir – que nem um pokemon.

dezembro 8, 2008

Tudo começa e termina na [pós-] ignorância

A Pós-Ignorância é um conceito que nasce, faz parte e critica a Pós-Modernidade. Trata-se de uma reação natural das pessoas em geral à quantidade de informação vomitada sobre todo mundo e à pressão que existe para elas tenham uma opinião sobre todas as informações.

A Era da Informação disponibiliza e soterra cada indivíduo com tantos dados que se torna impossível captar e muito menos analisar tudo. Em uma edição de domingo do New York Times há mais informação do que teria acesso uma pessoa do século XVI em toda a sua vida.

Assim que, como seria possível uma pessoa conseguir digerir todo esse conhecimento em tão pouco tempo. Ainda mais se for levado em consideração que esse mesmo conhecimento muda – cresce ou retrai ou se divide ou se multiplica – de forma a se tornar mais conhecimento a cada instante.

Desde criança sempre gostei muito de comer ovos mexidos de café da manhã. Por anos minha mãe me proibiu de comer mais de dois ovos por semana por que fazia mal à saúde. Quando já era adolescente, saiu no jornal que tudo era um engano: algum estudo [provavelmente inglês, porque os ingleses adoram fazer os estudos mais esdrúxulos possíveis] dizia que não havia provas conclusivas de que comer mais de dois ovos por semana prejudicava a saúde. Isso, só para aparecer outro estudo [provavelmente americano, porque os americanos sempre fazem estudos que indicam que você precisa comprar algum produto ou serviço para ser mais e melhor na vida] contradizia o primeiro e afirmava categoricamente que não se devia comer mais de dois ovos por semana senão morreria depois de três meses.

Fato é que, até hoje, não há dois estudos seguidos que concluam a mesma coisa a respeito do assunto, mas todos sempre trazem um dado a mais para a questão do consumo semanal de ovos per capita.

Então, se uma pessoa resolve saber sobre o que passa à sua volta, são várias “questões do ovo” por segundo que aparecem – todas crescendo e criando mais uma questão a ser discutida e analisada.

Para que alguém consiga capturar todo esse conhecimento produzido e despejado no nosso colo a cada segundo pelos meios de comunicação essa pessoa teria que tirar a vida para fazer isso. E ainda faltaria tempo.

Mas, além disso, todos precisam possuir uma opinião sobre cada informação que conseguiu pescar. Você é a favor ou contra, concorda ou discorda, entendeu ou não entendeu, assumiu na sua vida ou deixou de lado?

A mesma Era da Informação que produz e lhe entrega essa quantidade massiva de conhecimento exige que você tenha um pensamento crítico sobre esse conhecimento – e produza mais conhecimento com isso.

Encontrar uma pessoa hoje que não esteja interada sobre a última manchete bombástica dos jornais e, pior, não tenha um juízo a respeito é muito difícil. Essa pessoa é tida como desligada, fora do mundo e sem assunto – portanto um pária.

E não estou falando de comentar os atentados terroristas na Índia ou da crise econômica mundial; estou falando de qualquer coisa que seja o assunto do momento, seja a cotação do dólar ou o fim do RBD.

Como seria possível para um indivíduo comum ter tempo para captar todas as informações e ainda analisar para ter suas próprias conclusões? Não é possível.

Assim que surge a Pós-Ignorância. O indivíduo capta conceitos rasos sobre todos os assuntos, desenvolve uma opinião simples, mas firme, sobre tudo e, dessa forma, não é excluído da sociedade da informação.

Seria como comprar um jornal e ler somente as manchetes e os subtítulos e, a partir disso, ter uma opinião formada sobre cada matéria do dia. Ou como assistir a um trailer de um filme e conversar sobre o mesmo citando partes e falando que o ator principal mandou muito bem. É ler o primeiro capítulo de um livro e as últimas páginas e reclamar que a história é chata e não faz o menor sentido.

Mas será que estas pessoas estão realmente criando uma opinião? Será que há algum conteúdo nessas informações criadas pelos pós-ignorantes?

A resposta é não. Não há informação simplesmente porque nada foi analisado, nada foi apreciado, digerido, inferido ou execrado por que não havia fundamento para fazê-lo. Como fazer queijo sem ter leite? Não se faz. E é isso que as pessoas têm feito, dado opiniões – em última análise, criado dados – vazias, ocas.

O mais incrível é que esse tipo de comportamento não se restringe a pessoas nas ruas, em conversas de bar, pessoas ou como eu ou você. Esse comportamento é reproduzido pelas pessoas responsáveis por fazer com que as informações cheguem e alcancem a todos.

Não se trata de uma crítica direta aos jornalistas, mas aos meios de comunicação, sejam eles alimentados por jornalistas ou qualquer outra classe de trabalhadores. São artigos, sites e livros que se propõem a falar de um determinado assunto, mas que resvalam superficialmente no tópico sem apresentar o assunto por completo, com conclusões e dados que corroborem o que está sendo dito.

Quantas vezes você acabou de ler um jornal e ficou com a impressão de que precisava ler mais, de que não captou toda a informação que devia sobre o assunto? Acabou de assistir a um programa de duas horas sobre a unha do pé esquerdo do orangotango da Papua-Nova Guiné e não sabe direito o que foi que dito? Assistiu ao telejornal e terminou com uma cara de interrogação maior do que se não tivesse assistido?

Isso ocorre não porque estes profissionais sejam charlatães ou queiram enganar o grande público. Até acredito que isso ocorra em alguns casos, mas não em todos. Creio que o que acontece com eles é o mesmo que acontece comigo ou com você: é muita informação, pouco tempo para absorver e menos tempo ainda pra analisar.

Para qualquer assunto que um indivíduo resolve discorrer, deverá haver milhares de referências que corroboram ou discordam, vários dados que devem ser apontados para sustentar a conclusão e infinitos formatos para entregar essa informação para as pessoas.

Na medida inversa, há muito pouco tempo para realizar essa pesquisa, menos tempo ainda para ter um pensamento crítico a respeito, tempo algum para escrever o artigo e absolutamente nenhum espaço para divulgar tudo o que precisaria conter o artigo para ter a informação o mais completa possível – ou seja, ele será editado por alguém que não fez a pesquisa e não desenvolveu o pensamento crítico para caber no espaço que há, com o menor número de palavras possível.

Sendo assim, há de se concluir que a Pós-Ignorância é criada dentro da Era da Informação – um aspecto da Pós-Modernidade –, por ela sustentada e retro-alimentada em um processo paradoxal ao que é o próprio conceito-cerne da Era da Informação. A Pós-Ignorância apóia e é apoiada pela sociedade da informação ao mesmo tempo que critica e esvazia a mesma.

dezembro 8, 2008

Não sei

Acho que tudo o que se escreve dando uma opinião, criticando, afirmando ou duvidando deveria começar assim: “não sei”.

Sim, é um grande clichê e, sem dúvida, um plágio das idéias de Sócrates [não, não pretendo ficar citando grandes nomes para falarem por mim o que eu quero dizer].

Só acho que realmente não sei muito do que falo, apenas tenho essa necessidade e desejo de falar sobre certos assuntos que as conversas diárias não alcançam ou simplesmente não contém e tudo o que transborda deve – ou deveria – parar por aqui.

Por isso, se alguém ler isso e se sentir ofendido pela minha opinião, pela minha falta de opinião ou por alguma coisa errada que eu venha a dizer, foi mal. Mas eu realmente não sei.

Então, considere que todos os textos posteriores a este que aparecerem neste blog sempre começam – e terminam – com um grande e importante “não sei”.